O mito da sereia
19 de Dez de 2016
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Artigo

O mito da sereia

"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas".

O poema "Congresso Internacional do Medo", de Carlos Drummond de Andrade, inspira-nos a refletir sobre as várias acepções do medo.

De fato, o medo pode paralisar o ser humano, mas também impulsionar a humanidade. Um verdadeiro paradoxo é, então, "estendido na areia".

Enquanto alguns desejam seus beijos de deusa, digo, enquanto muitas pessoas utilizam o medo como verdadeiro combustível para investir na criatividade e na superação de obstáculos, há quem deseje seu rabo pra ceia.

Há quem cisme em dar valor a esta sereia, este ser mitológico criado pelo inconsciente para sabotar as nossas possibilidades: o medo. 

O medo, um sentimento natural de todo ser vivo - vivo, logo tenho medo -, é bastante salutar enquanto utilizado pela mente para avisar sobre variados perigos. O medo é um instrumento eficaz de autoproteção de ameaças externas.
 
O problema é quando o medo se torna um sentimento constante, padronizado e sem ombudsman. Isto é, quando a autocrítica e a reflexão sobre si mesmo não entram em ação a fim de constatar que, na realidade, não existem quaisquer ameaças externas, mas sim internas!

Esse sentimento que seria saudável e surtiria apenas efeitos de prevenção torna-se, assim, um inimigo dentro da "sua própria casa". Na verdade, é bem pior que isso. Ele está na sua mente.

E, o que parecia um simples sentimento, pode invadir sua alma. Pode virar sensação tão comum quanto sentir fome. Ou mais.

Acordo, sinto fome e também medo de comer este ou aquele alimento. Vou ao banheiro, mas tenho medo de lavar os cabelos. Pode ventar... Vou escolher roupa, mas tenho medo de vestir roupa branca... Pode chover... 

E, pouco a pouco, sente-se mais medo que fome, ao longo do dia. É o rabo da sereia já na mesa pra ceia. O medo, essa sereia, esse ser mitológico. 

Dizem que o frio é psicológico. A fome, não. E o medo? Distúrbio de ansiedade. 

Deveria procurar um médico, mas tenho medo do diagnóstico.

Por Eliana Khader

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