Uma arquitetura é fatalmente poética
03 de Abr de 2017
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Iazana Guizzo

A poética não é determinada por campos do conhecimento, ela habita percursos sempre fronteiriços. Le Corbusier ocupava metade do tempo de trabalho do seu escritório com atividades de artes plásticas e com experimentações. Álvaro Siza é finamente movido pela poesia, e quando escreve, ou desenha, deixa ver por onde sua arquitetura transborda. Lina Bo Bardi frequentou as gravações de clássicos do Cinema Novo e promoveu a arte popular. Gregotti, ao falar de um grande arquiteto, escreveu: "posso dizer que não é possível distinguir entre sua vida e sua arquitetura."

Assim, quando não conhecemos suficientemente a vida dos arquitetos que admiramos, corremos o perigo de ignorarmos o tanto de transdiciplinaridade que atravessava as suas vidas.

Um diploma não garante nada. É preciso, antes, inventar uma maneira de ser arquiteto. A arquitetura é a expressão de um território, de um modo de ser e de viver, de uma perspectiva filosófica, de uma aposta em certo mundo. Por outro lado, é verdade que a cegueira do funcionalismo é sempre acompanhada de severidade e de deselegância, afinal, é natural renegarmos aquilo que desconhecemos, aquilo que não podemos enxergar.

Conhecer as principais matrizes formadoras da cultura brasileira é um ponto de partida para quem entende a arquitetura como cultura, para quem se encontra nesse território de intensa heterogeneidade. Estamos diante de um país extremamente complexo, diverso, muitas vezes impraticável, e potente. Conhecer a força dos povos ameríndios, da cultura afro-brasileira e lusitana, nos revela, de cara, a nossa própria ignorância, bem como uma postura perigosa de imposição cultural que podemos ter ao desenhar e construir espaços. O arquiteto de hoje fatalmente se depara com novos paradigmas - e sabemos, na realidade, que a teoria e crítica da arquitetura e do urbanismo começaram a rever sua postura impositiva desde o pós-guerra.

Exercícios corporais podem ser ferramentas extremamente necessárias no enfrentamento dos problemas contemporâneos. Hoje, projeta-se não apenas para o outro, mas, também, com o outro.

São novos modos que se descortinam, e o trabalho corporal é certamente uma ferramenta que, entre outras, pode aprimorar a escuta e o convívio com a alteridade. Trata-se de uma maneira de conhecer que se efetua a partir das sensações, dos afetos, e que exercita o encontro com os outros, humanos ou não, ou, ainda, com o outro em nós mesmos.

Não seria este um tema legitimamente sustentável? Ou seguiremos acreditando que a preservação do planeta será possível através da criação de selos sustentáveis? Sem que haja uma mudança real de paradigma? Trata-se de um caminho de combate ao individualismo. E já não é mais possível acreditarmos na falsa promessa de que, um dia, todas as pessoas virão a desfrutar do padrão de vida dos países ricos. Afinal, para que isso acontecesse, precisaríamos, no mínimo, de mais seis outros planetas Terra com a mesma quantidade de recursos naturais.

O cultivo da poética é cada vez mais raro, ao passo que a pressa excessiva e a quantidade de estímulos e conexões digitais ditam nossas vidas desconectadas. É preciso tempo e presença para criar. Uma simples respiração, atenta ao entorno, e uma experimentação destituída de juízos, podem iniciar um modo de fazer arquitetura. Aqui, a aposta recai no corpo capaz de se tornar outro, capaz de contemplar, capaz de criar a partir do que o afeta, capaz de expressar aquilo que inventa.

É preciso criar para escapar aos modelos espaciais. Uma arquitetura é fatalmente poética.

Arquiteta e Urbanista Iazana Guizzo

Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula Texto em resposta a conversa no grupo Arquitetura do Facebook gerada a partir da reportagem intitulada "Curso de Arquitetura e Urbanismo inova ao incluir expressão corporal como disciplina." publicada no jornal Extra no dia 21/03/17. A reportagem refere-se a disciplina A1:Expressão do novo currículo do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula, na qual sou, também, professora.

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